Pé de Tempo #14
Um espectro ronda a esquerda catarinense.
E é como se eu despertasse de um sonho
Que não me deixou viver
E a vida explodisse em meu peito
Com as cores que eu não sonhei
E é como se eu descobrisse que a força
Esteve o tempo todo em mim
(Gonzaguinha, De Volta ao Começo)
Desde 2018, um espectro ronda a esquerda catarinense. E esse espectro não é o do comunismo.
As eleições de 2018, no Brasil e em especial em Santa Catarina, foram atípicas. Nenhum analista político poderia, à época, cravar com certeza absoluta os resultados. Por mais que pudéssemos identificar o bolsonarismo enquanto um movimento em ascensão, o que a “onda 17” significou no momento da abertura das urnas foi algo que mexeu com o brio dos dirigentes e candidatos de diferentes partidos em nosso estado. As tentativas para explicar aquele fenômeno foram algumas, mas o objetivo deste não é tratar delas. Quero aqui abordar os movimentos na política catarinense a partir daquelas eleições.
De um lado, na direita tradicional, houve um movimento de adaptação e incorporação ao bolsonarismo, absorvendo seus métodos e concepções de mundo. Partidos, inclusive da centro-direita — como o histórico MDB — se viram tomados por bolsonaristas, que passaram a pautar seus rumos eleitorais sob a perspectiva dos acenos à extrema-direita. Quem não se lembra de Jorginho Mello, hoje liderança do bolsonarismo no estado, no palanque de Dilma Rousseff em 2014? É claro que o hoje governador não era um político de esquerda no passado. Seu apoio à reeleição de Dilma na época foi um movimento comum para um político de centro-direita, tanto que lá em 2014 ninguém havia se surpreendido. Hoje, ninguém duvida que Jorginho Mello seja um político de extrema-direita. Os ataques às políticas de justiça social, como o fim das cotas raciais mais recentemente, ou mesmo a investida contra a vacinação obrigatória para crianças em idade escolar no início de 2024, depõem nesse sentido.
Já para parte da esquerda catarinense, os resultados eleitorais de 2018 também significaram a leitura de uma necessidade de adaptação. E é esse o espectro que ronda a nossa esquerda: o espectro da ampliação à direita. Dos resultados de 2018, de diminuição no parlamento em comparação a 2014, esse setor da esquerda em Santa Catarina não encarou como lição entender os possíveis erros que levaram a uma desconexão com os anseios da população do nosso estado e que refletiu em perda de espaço eleitoral. Ao invés disso, a fórmula explicativa encontrada foi a de que a esquerda estava muito isolada e que, para sair desse isolamento, haveria a necessidade de buscar ampliação para o centro e centro-direita, sob o guarda-chuva do que seria, em terras catarinenses, um campo democrático. Claro que se aproximar daqueles que reivindicam a democracia deveria ser tarefa da esquerda. Ainda mais no contexto pós-golpe que derrubou a presidenta Dilma, em 2016, e sob o governo Bolsonaro, a partir das eleições de 2018. Contudo, o que vimos, principalmente no que antecedeu os encaminhamentos para as eleições de 2022, foi a vinda para a mesa da esquerda catarinense de figuras da direita tradicional que outrora flertaram com o golpismo, a retirada de direitos e o próprio movimento bolsonarista. E nesta mesa, a parte da esquerda que ousou manter sua identidade e seu compromisso com pautas históricas foi colocada de lado.
Os resultados eleitorais deste movimento de ampliação não vieram. Não houve um significativo aumento no espaço da esquerda no estado. A ida para o segundo turno nas eleições para governador, feito histórico no estado, não foi resultado do movimento de ampliação e sim, a bem da verdade, resultado da unidade na própria esquerda, que teve um único candidato ao governo.
As eleições de 2026 se aproximam e o receituário, ao que tudo indica, se repete. Os mesmos atores voltam ao jogo, alguns em posições diferentes, não na perspectiva da construção da unidade na esquerda, mas sim reproduzindo a mesma fórmula de 2022 em Santa Catarina: ampliar com figuras que outrora estiveram em lado oposto à nossa tradição. Cabe dizer que não acho que o problema esteja nos indivíduos. Pessoas mudam, embarcam e desembarcam de projetos políticos e está tudo bem, afinal, unir forças não é apagar diferenças. Inclusive, a cola que os unifica, assim como em 2022, é o palanque nacional de Lula. E nisso, temos acordo. O erro, ao meu ver, é o de que essa parte da esquerda parece não compreender ser necessário um debate político que coloque no centro da construção da aliança qual o perfil de campanha que vamos às ruas neste ano.
Santa Catarina, nos últimos anos, atravessou um período de retrocessos e retiradas de direitos. O ataque à política de cotas raciais, o desmonte da legislação estadual de proteção ambiental, a constante ameaça de privatização da CASAN, o crescente discurso antimigratório e outras medidas exigem da esquerda um programa à altura. Devemos ser combativos, apontando para o fortalecimento de políticas de justiça social e ambiental, em defesa do patrimônio público do povo catarinense, dos direitos humanos e fazendo coro à agenda nacional do governo Lula: por justiça tributária e o fim da escala 6x1.
A possibilidade de sucesso da esquerda em Santa Catarina nestas eleições, ao meu ver, não necessariamente depende de sua capacidade de ampliar à direita. Acredito que o nosso grande desafio seja o de reencontrar conexão com um eleitorado que já foi nosso, e penso que não teremos sucesso nessa tarefa se escondermos nossa cara.


